Descoberta antecipa data em um milênio e embaralha teoria sobre dispersão. Cientistas estudaram carvões de duas fogueiras feitas em épocas diferentes para determinar a presença indígena em Araruama (RJ)

Eduardo Geraque escreve para a “Folha de SP”:

O povo tupi-guarani já vivia na região de Araruama (RJ) há 2.920 anos (a margem de erro é de 70 anos) -aproximadamente 1.180 anos antes do que as evidências científicas indicavam até hoje. A descoberta publicada nos "Anais da Academia Brasileira de Ciências" embaralha as teorias que tentam explicar a dispersão dessa cultura índígena, que teria começado na Amazônia.

A "nova" datação, deduzida a partir dos carvões de uma fogueira (provavelmente usada na queima de cerâmica), na verdade foi feita no final dos anos 1990. Justamente pelo fato de ser antiga demais, porém, a autora do estudo, Rita Schell-Ybert, do Museu Nacional, não acreditou que a fogueira pudesse ser obra de humanos, e acabou engavetando a análise.

O panorama só começou a mudar recentemente, quando surgiu um outro dado. A datação de uma outra fogueira, desta vez de origem funerária, no mesmo sítio arqueológico de Morro Grande, município de Araruama, mostrou que ela havia sido feita 2.600 anos atrás.
Os tupis-guaranis, diz Schell-Ybert à Folha, enterram seus mortos em urnas, mas ao lado eles fazem fogueiras -tanto para "espantar espíritos ruins" quanto para "aquecer a alma" do morto e prepará-la para entrar no Guajupiá (o Paraíso da mitologia tupi-guarani).

"Com essa nova datação resolvi voltar ao estudo do final dos anos 1990", diz a cientista, que contou com recursos do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro). A hipótese de que aqueles carvões não tinham sido queimados por humanos acabou descartada.

Uma das pistas que levaram a essa conclusão, explica a antropóloga, é a quantidade de cascas observadas nas amostras. "Quando a queima é de origem antrópica [humana], existe muito mais casca do que lenha, como foi visto", afirma.

Com as duas informações em mãos: a fogueira funerária de 2.600 anos e a fogueira doméstica de 2.920 anos, as evidências antropológicas de que os tupis-guaranis habitaram aquela região dos lagos fluminenses ficou mais robusta. "Nesta área, provavelmente, houve um ciclo de ocupação e desocupação", explica.

Mas se os tupis-guaranis chegaram ao atual Sudeste do país faz tempo, como eles poderiam ter deixado a Amazônia quase na mesma época, como mostram as evidências científicas disponíveis atualmente?

Migração antecipada

"Os resultados são bem surpreendentes. Eles complicam um pouco as coisas, talvez até nos levando a rejeitar uma origem amazônica dos tupis-guaranis", afirma Eduardo Neves, antropólogo do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.

Neves trabalha em Porto Velho (RO) tentando descobrir se o centro a partir do qual os tupis-guaranis se dispersaram era naquela região. Segundo ele, as datas potencialmente candidatas para as ocupações da Amazônia são as mesmas que as divulgadas agora para o norte do Rio de Janeiro, "ou até mais recentes". Mas essas datações, diz o pesquisador da USP, são baseadas em dados lingüisticos e não arqueológicos.

Para a pesquisadora do Museu Nacional, essa ocupação antiga dos tupis-guaranis no Rio, se não tira a importância da Amazônia como centro de origem desse grupo indígena, ajuda a mostrar, talvez, que a saída do norte do país começou bem antes do que se imaginava.
(Folha de SP, 17/12)

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Qdo a gente acha que pode estar começando a entender algo... algum dado nos mostra que a gente não entendeu nada.

é foda malandro...
Acho que o seu comentário foi deselegante e carregado de amadorismo. Não vi seu perfil mas possivelmente sua credenciais, se é que as tem, e estas sejam legítimas e legais, deveriam qualificá-lo a tecer comentários mais responsáveis e profissionais.

Prezados colegas, 

 

Acredito que não devemos chegar a conclusões precipitadas. A hipótese da dispersão (norte-sul) do povo Tupi-guarani, apesar de novos dados apresentados, ainda é plausível, pois deve-se considerar o volume considerável de trabalhos arqueológicos (proporcionalmente) realizados na região sudeste do país em detrimento à região Norte. Pode ser que os sítios mais antigos ainda não tenham sido encontrados ou já tenham sido destruídos.

Apesar do que parece, não defendo essa hipótese (ou conjectura), mas a vejo (assim como outras) como uma forma de refletir sobre o processo de ocupação indígena nas terras a que hoje chamamos de Brasil.

 

 

Caro Roberto e demais colegas interessados no assunto tupiguarani,

Os problemas relacionados com a origem e dispersão dos grupos Tupiguarani ainda persistem e persistirão, pois quanto tudo for esgotado não haverá mais razão de estudados, o que seria a negação do proprio conhecimento cientifico. Existem muitas questões que ainda não foram explicadas e que considero basilares para o entendimento desta Tradição cultural. As "manchas" que encontramos cobertas de fragmentos na maioria das vezes são confundidas com o interior das Ocas. Será? como eles morariam sobre cacos? Será que não corresponderiam a um processo de descarte a partir de uma abertura na parte posterior da oca? O fato é que existe uma logica matematica na dispersão. Já escrevi sobre isto, onde mostro que dependendo do grau de perturbação do sitios pode-se, através da aplicação da teoria de correlação saber, com um grau de acerto muito alto, quantos cacaos encontraremos em diferentes pontos da concentração. Por outro lado, quando se estudou por influencia do "metodo Ford" o metodo de manufatura como elemento identificador, mostrei atraves de experiencias de RX que a mesma vasilha apresentava diferentes "metodos" de manufatura, ou seja, poderia ser iniciada por moldagem, em seguida por modelagem e depois por acordelamento. Como isto, depois desta experiencia que se encontra publicada, para mim é um fato inconteste, tenho que admitir que, se estudarmos uma coleção de fragmentos quanto ao metodo de manufatura, não teremos um resultado seguro, pois dependendo de que parte do vasilhame seja o fragmento teremos um resultado diferente. O mesmo ocorrendo com relação ao antiplastico, que também escrevi sobre o tema mostrando que este elemento não possui nenhum significado espaço temporal. Quando se tinha cronologias em torno do descobrimento do Brasil, obtive uma amostra em torno de 2000 anos. tive receio de publicar, durante muito tempo, pois era tão distante o resultado que poderia ser fruto de uma contaminação da amostra. Por outro lado pergunto, quam migrou foi a "Tradição ceramica" ou as pessoas que a detinham? Existem muitas outras questões sobre o tema que ainda se encontra muito enevoado, a despeito de haver muitos trabalhos serios sobre o tema. Acho que teriamos que ter humildade para admitir o que não sabemos e redirecionar os estudos de forma mais objetiva. Este é um tema que muito me interessa e que deixei de lado durante muito tempo por falta de interlocultores. Enquanto o "metodo Ford" trabalhava com 3 ou 4 variaveis não estudavamos mais de 100 itens de analise por peça. Enquanto se estabelecia cronologias com base da distribuição do antiplastico estavamos estudando rachaduras de queima, secagem e pós-deposicional. De qualquer forma gostaria de trocar idéias com colegas que se interessem pelo assunto e que não trabalhem com paradigmas irremoviveis. Falta muito para se ter uma posição que se aproxime da realidade sobre a tradição Tupiguarani.

Abraços a todos,

Marcos Albuquerque

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